Malick Sidibé e a falta de visibilidade preta na Fotografia

04 novembro 2016

Eu ia intitular essa postagem como: "ausência de referência preta na fotografia", mas pensei bem e percebi que não, a referência existe e está por aí, mas acredito que talvez mais importante ainda é questionar: cadê a visibilidade? Onde estão os nomes de artistas pretos nas aulas da faculdade? E bem, é disso que quero abordar um pouco no post de hoje.

Malick Sidibé foi um fotógrafo africano do Mali que foi capaz de retratar a reafirmação de um povo num país recém independente em 1960 depois de 80 anos de colonização da França. Malick narrou a história de uma nação que estava redescobrindo a própria identidade.

Sua obra começou a ganhar destaque ao abrir um estúdio em 1962  numa rua movimentada do popular bairro Bagadadji. O lugar era muito visitado pelas pessoas que iam mostrar suas roupas que eram tendência de moda na época, como as calças boca de sino. 

Sidibé montava toda a composição da fotografia, desde os trajes dos retratados, adereços e o cenário que em algumas vezes exibiam padronagens que poderiam roubar a cena, mas que causavam o efeito contrário, pois os rostos se destacavam por serem justamente um elemento diferente diante de todas as formas geométricas. 

Recebeu prêmios como o Hasselblad, World Press Photo, foi o primeiro africano a receber o Leão de Ouro na Bienal de Veneza e deu aulas de fotografia e arte em Bamaco, capital de Mali. 

Aos 64 anos iniciou uma série chamada Vista de Costas como o exemplo da fotografia abaixo.

"A série foi feita para atingir um público essencialmente ocidental. Uma antítese visual, social e pessoal à forma como os fotógrafos europeus dos tempos coloniais retratavam e viam os africanos. Através desse recurso, o espectador estrangeiro perde a capacidade de compreender algo que passa para o conhecimento restrito do retratado e do autor da foto, ambos africanos." - Rowland Abiodun, professor de história da arte e estudos negros, p. 59.

Sempre usando uma câmera analógica, chegou a trabalhar em uma edição especial de moda inspirada em temas africanos da revista New York Times e tirou de dua a três fotos por modelo, dando um total de incrivelmente 22 fotos no final do ensaio. Vocês têm noção de como isso é bonito e cuidadoso o bastante pra que cada clique seja preciso e certo na medida do possível a fim de não precisar realizar mil cliques sem parar como quando fazemos com as câmeras digitais? Eu achei isso divo e foi aqui que ele ganhou o prêmio World Press Photo. 


Essas informações foram tiradas da leitura que fiz da edição nº 6 da Revista Zum de fotografia. Ela é bem bacana, assim como a versão online. Meu brother que me mostrou por motivos de: um fotógrafo preto ♥ e então comprei. São onze páginas destinadas ao Malick escrita por Dorrit Harazim. As fotografias dessa última imagem e da que tenho a minha mão em cima foram vistas por mim em alguma rede social como tumblr e instagram há um tempo, mas até então nem sabia o autor. Fiquei bem feliz quando soube que eram dele.

E bom, Malick é mais uma referência preta que agora faz parte da minha bagagem cultural, mas que se dependesse das aulas de fotografia da faculdade eu duvido muito, muito mesmo que o conheceria. Eu não tô nem aí pra Sebastião Salgado, sabe? Sinceramente, eu passei a vida escolar inteira sendo educada pela visão do colonizador. A única história contada do meu povo foi da merda toda que meus ancestrais tiveram que passar enquanto pessoas escravizadas, então, né? No momento estou mais interessada em muita, muita negritude com visibilidade. Eu quero identificação, quero me ver por aí. Nós temos nossa própria história e cultura que merecem ser conhecidas.

○compartilhar

11 comentários:

  1. Ai que saudade daqui. Sempre falo isso, né? Mas é verdade. Adoro seus posts, tanto o conteúdo como a forma que é apresentado. Eu não conhecia Malick Sidibé. Também estou numa fase de buscar meus ancestrais. Mas não a história de sofrimento e luta, esse também é importante e tal, porém procuro referências para vida de forma geral: pintoras, escritoras, militantes etc etc etc

    Adorei também a dica de revista. enfim, obrigada.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada! ♥♥♥
      Exato! Você resumiu muito bem o que eu quero também. É tudo muito escasso e apagado, né? Representatividade importa demais. Pretendo fazer mais posts de artistas/criativos/criadores que me inspiram e dar visibilidade a eles o/

      De nada! Obrigada por interagir =**

      Excluir
  2. Nossa, amei o post.
    Nunca tinha ouvido falar desse fotógrafo nem de seus feitos, acho q podemos tirar daí a falta de visibilidade né :/
    Muito bom vc nos apresentar esses artistas, pois, além do talento maravilhoso, passa a inspirar mais pessoas, mostrar q estão sendo vistas sim :3
    beijooos
    Ganurb

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exatamente, Bru!
      Simmmm, é importante demaisssss, bora dar visibilidade <3

      beijaumm

      Excluir
  3. Moça, muito, muito, muito obrigada por divulgar.
    Fiz umas buscas pelas fotos do Sidibé e, cara, eu já tinha visto um punhado bom de fotos dele por aí, mas não fazia ideia de que eram dele.

    Ah, e que bom que você voltou.
    Obs: também não dou bola para Sebastião Salgado. rsrs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Imagina, estou fazendo oq tem q ser feito ♥
      Incrível, não? Obrigadaaaa, estou de volta \o/

      Obs: Aeeee!! auhaushuashu!

      Excluir
  4. Nossa, o blog tá lindo e as imagens do post mais ainda! Obrigada por esse post, já havia visto as fotos por aí, mas como a rayani, não sabia que era dele e nem a sua história. Achei incrível a série que ele fez com as pessoas de costas e seu significado! Sobre as aulas da faculdade: muito real. tô cagando também pro sebastião salgado e essa parâmetro ocidental e europeu que rege todos os estudos!

    ResponderExcluir
  5. Que post incrível, Grazi! Muito feliz que tás de volta. ♥ Eu não conhecia o trabalho dele e essa falta de visibilidade acontece não só na fotografia, né? Triste demais. Trabalho impecável!

    ResponderExcluir
  6. Que incrível, Grazi!
    Infelizmente não há mesmo visibilidade (convenhamos, não só na fotografia). Parei um pouco pra pensar e percebi que não conhecia nenhum fotografo negro – até agora. Malick tem um trabalho lindo e criativo!
    Fico feliz que tenha voltado, estava com saudades dos seus posts e toda essa representatividade daquilo que acredita. Admiro muito isso em você. <3

    Um beijo
    www.nossorelicario.com

    ResponderExcluir
  7. Olha só nunca nem ouvi falar sobre um fotografo preto ♥. E pra ser sincera fiquei surpresa por que é a primeira vez que vi. O que fez parar para pensar o quanto nós estamos acostumado com a "falta de representatividade" que nos assustamos quando conseguimos nos vê representado por aí. Achei muito legal seu post Grazi, e são blogs assim que nos abrem a mente.

    Obrigada!

    ResponderExcluir
  8. coisa linda de texto e delícia poder aprender mais sobre a cultura afro (além da história que a gente tanto já conhece). há toda uma cultura pra ser mostrada, não é mesmo? que a história seja mostrada por inteiro ♥

    ResponderExcluir